Direitos, memória curta e a hipocrisia conveniente
Acordei revoltada e incomodada com esta notícia.
Quem pode votar em Portugal.
Falo dos brasileiros.(O país irmão).
A discussão que se instala na minha revolta.
Como se fosse novidade, este país nunca tivesse sido construído por mãos estrangeiras. de quem ajudou a construí-lo e nunca foi tratado como prioridade.O que dói é ver que quem sempre esteve cá, quem nunca exigiu nada, quem deu tudo, continua a ser tratado como cidadão de segunda. Africanos e luso-africanos continuam a carregar o peso do preconceito, da suspeita, da exclusão silenciosa. Enquanto isso, o Estado fecha os olhos às falhas do sistema e prefere varrer as desigualdade para debaixo do tapete.
Portugal orgulha-se da sua história de emigração, mas esquece-se de honrar os imigrantes que o sustentaram.
Orgulham da democracia, mas pratica de forma seletiva.
Orgulha-se da diversidade, mas não a protege.
Os meus pais como tantos outros nunca pediram nada.
Deram tudo.
E talvez tenha sido o erro: acreditar que dignidade seria suficiente para garantir respeito.
Uma democracia que escolhe quem merece direitos não é uma democracia plena.
É apenas um sistema confortável para alguns e injusto para outros.
Enquanto Portugal não encarar a verdade de frente, continuará a chamar integração ao que é desigualdade.
Isso não é progresso.
É hipocrisia institucionalizada.
Tantas famílias africanas e luso-africanas, em que a sobrevivência fez-se à custa de silêncio, resistência e dignidade.
Nunca houve a mão estendida do governo.
Nunca houve prioridade.
Nunca houve reconhecimento.
E, no entanto, foram essas famílias que ajudaram e construíram Portugal. Trabalharam onde ninguém queria trabalhar. Aceitaram salários baixos, horários desumanos e invisibilidade social. Trocaram as suas raízes por uma promessa simples: paz, segurança e um futuro melhor para os filhos.
Assistimos a um sistema onde outros chegam e fazem exigências e são atendidos. Onde o discurso oficial fala de integração, mas a prática cria categorias invisíveis de cidadãos. Uns com acesso rápido a direitos, outros obrigados a provar durante décadas que merecem existir.
Não se trata de nacionalidades.
Não se trata de ser contra quem chega.
Trata-se de justiça e coerência.
Trata-se de uma crítica a um Estado que falhou historicamente com os africanos e luso-africanos que estiveram cá desde sempre. Que contribuíram, pagaram impostos, sustentaram setores inteiros do país e continuam a ser tratados como cidadãos de segunda.
A democracia não pode ser seletiva.
Nem na memória, nem na justiça, nem na dignidade.
Elsa Varela, uma luso-africana!