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Diario de uma mulher negra

Elsa Varela, Anemia falciforme, depressiva, ansiosa, neurótica sempre estilosa! Viciada em roupa, sapatos,café com açúcar e uma pitada de resiliência!

Diario de uma mulher negra

Elsa Varela, Anemia falciforme, depressiva, ansiosa, neurótica sempre estilosa! Viciada em roupa, sapatos,café com açúcar e uma pitada de resiliência!

Direitos, memória curta e a hipocrisia conveniente

 

Screenshot_20260110_141018_Samsung Internet.jpgAcordei revoltada e incomodada com esta notícia. 

Quem pode  votar em Portugal.

Falo dos brasileiros.(O país irmão).

 A discussão que se instala na minha revolta.

Como se fosse novidade, este país nunca tivesse sido construído por mãos estrangeiras. de quem ajudou a construí-lo e nunca foi tratado como prioridade.O que dói é ver que quem sempre esteve cá, quem nunca exigiu nada, quem deu tudo, continua a ser tratado como cidadão de segunda. Africanos e luso-africanos continuam a carregar o peso do preconceito, da suspeita, da exclusão silenciosa. Enquanto isso, o Estado fecha os olhos às falhas do sistema e prefere varrer as desigualdade para debaixo do tapete.

Portugal orgulha-se da sua história de emigração, mas esquece-se de honrar os imigrantes que o sustentaram.

Orgulham da democracia, mas pratica de forma seletiva.

Orgulha-se da diversidade, mas não a protege.

Os meus pais como tantos outros  nunca pediram nada.

Deram tudo.

E talvez tenha sido o erro: acreditar que dignidade seria suficiente para garantir respeito.

Uma democracia que escolhe quem merece direitos não é uma democracia plena.

É apenas um sistema confortável para alguns e injusto para outros. 

Enquanto Portugal não encarar a verdade de frente, continuará a chamar integração ao que é desigualdade.

 Isso não é progresso.

É hipocrisia institucionalizada.

Tantas famílias africanas e luso-africanas, em que a sobrevivência fez-se à custa de silêncio, resistência e dignidade.

Nunca houve a mão estendida do governo.

Nunca houve prioridade.

Nunca houve reconhecimento.

E, no entanto, foram essas famílias que ajudaram e construíram Portugal. Trabalharam onde ninguém queria trabalhar. Aceitaram salários baixos, horários desumanos e invisibilidade social. Trocaram as suas raízes por uma promessa simples: paz, segurança e um futuro melhor para os filhos.

Assistimos a um sistema onde outros chegam e fazem exigências e são atendidos. Onde o discurso oficial fala de integração, mas a prática cria categorias invisíveis de cidadãos. Uns com acesso rápido a direitos, outros obrigados a provar durante décadas que merecem existir.

Não se trata de nacionalidades.

Não se trata de ser contra quem chega.

Trata-se de justiça e coerência.

Trata-se de uma crítica a um Estado que falhou historicamente com os africanos e luso-africanos que estiveram cá desde sempre. Que contribuíram, pagaram impostos, sustentaram setores inteiros do país e continuam a ser tratados como cidadãos de segunda.

A democracia não pode ser seletiva.

Nem na memória, nem na justiça, nem na dignidade.

Elsa Varela, uma luso-africana!